Cursos Modernos

Refletindo sobre as informações que estão sendo passadas nestes cursos de 2, 3, ou poucos dias sobre uma modalidade tão complexa quanto o levantamento de peso, percebo que há muito com o que se preocupar, especialmente quando analiso que são milhares de ‘coaches’ que estão saindo destes cursos com ‘certificação’ para atuar como treinador de levantamento de peso. Caso seja um curso com o intuito apenas de informar ou criar uma faísca em alunos sobre uma modalidade pouco discutida nas Universidades brasileira, tudo bem. Se for um curso caríssimo que promete lhe ensinar uma metodologia específica? Desconfie. Tais clínicas re-produtivistas mais se relacionam com o filme de Charles Chaplin do que com o processo de ensino-aprendizagem.

Charniga denomina tais cursos como ‘doper clinics’. Traduzindo, fico na dúvida se ele, ao utilizar o termo ‘dope’, se refere à falsificar/falso; ou ao termo ‘doper’ em francês: impulso (mencionando a ‘técnica’/nova técnica ‘russa’, comumente transmitida nestes seminários, que alguns aqui em terras tupiniquins denominam de ‘catapulta’).

Primeiramente irei escrever sobre a recente participação da equipe russa de levantamento de peso nos Jogos Olímpicos, sem levar em consideração o recente escândalo de doping (inclusive dos JO de 2008 e de 2012).

Tabela 1. Conquista de medalhas Olímpicas da equipe russa de Levantamento de Peso nos Jogos Olímpicos de 2000 a 2012. V. Saltykov, 2012.

Podemos observar que os russos conquistaram apenas uma medalha de ouro neste período, na categoria 105kg, com Dmitry Berestov. Neste mesmo período, a equipe feminina da Rússia não conquistou uma medalha de ouro sequer, enquanto a equipe feminina chinesa conquistou 14 ouros, os homens nove, e a equipe do Irã conquistou 4x mais medalhas de ouro.

Enquanto alguns estudiosos russos defendem que o erro está na falta de investimentos em tecnologias, como em avançadas câmeras de vídeo que possam capturar imagens em 500-10000 frames/segundo. Apesar de os protocolos das mais recentes pesquisas ainda sejam utilizados com câmeras de 24-25 frames/segundo. Tarasenko, um destes cientistas, percebe que não signifique que a ideia do movimento esteja errada, porém que os levantadores estejam realizando movimentos que não foram observados no passado (como o caso de Sergey Bubka, cuja técnica diferenciada, ensinada pelo seu treinador, Vitaly Petrov, fora somente descoberta após a evolução das câmeras de filmagem).

Khairullin cita que o crescimento do número de lesões pré-Jogos deve-se a um insuficiente protocolo de aquecimento. O autor basicamente recomenda um grande número de movimentos parciais com pouca carga, como puxadas, saltos, desenvolvimento por trás da cabeça, entrada de arranque, bom dia, tudo isto com uma quantidade padrão de movimentos técnicos acima de 90%, ou seja, uma prática mínima da atual estrutura de competição.

Se analisarmos pelas informações obtidas nestes cursos, podemos citar como exemplo a que ‘a barra deve, sempre, se manter próxima ao corpo’. Porém, esta afirmação remete ao encolhimento dos ombros, essencial nos protocolos russos. O que por sua vez, implica na criação do mito da importância da utilização do trapézio durante a puxada, tanto do arranque quanto do arremesso.

Basta observar esta atleta chinesa Deng Wei para concluir que tal recomendação absoluta não necessariamente é uma regra.

Porém, talvez a maior informação publicada recentemente, sobre as transformações modernas no cenário do levantamento de peso, em especial, nos Jogos Olímpicos, fora de um artigo a respeito do treinamento da equipe do Cazaquistão, publicado por Ivan Sivokhin, um russo que trabalhou sobre a supervisão de Alexander Lukashev no mesmo Instituto de Esporte onde Aleksei Medvedyev e Yuri Verkhoshansky trabalharam.

Neste artigo, ele cita: ‘Essencialmente, os resultados no levantamento de peso são determinados pela efetividade da técnica do atleta nos exercícios competitivos’. A ideia provavelmente tenha vindo de seu mentor, Lukashev. Assim, apesar de o sistema de treinamento do Cazaquistão aparentar ter vindo do livro de treinamento búlgaro, ele possui uma lógica puramente russa nas entrelinhas.

Aleksander Lukashev.

Tanto os russos quanto os chineses possuem suas próprias metodologias, porém, eles possuem o mesmo sistema: premiar seus campeões de acordo com seus resultados, ou seja, quando tudo está feito, o país com mais recursos humanos (mais atletas) é o que irá obter melhores resultados, pois no frigir dos ovos, seus métodos de treinamento eliminam muitos atletas qualificados.

Levando em conta tal consideração, não dá mais para aceitarmos pensamentos como ‘... a metodologia utilizada pelos americanos (ou quem quer que seja) baseia-se em técnicas utilizada na década de 60 pelos soviéticos, metodologias e técnicas já ultrapassadas e esquecidas’. Sendo que Charniga menciona que, ao visitar a União Soviética em 1979, ele adquiriu publicações anuais (Yearbook’s)- textos pequenos escritos pelos treinadores e cientistas do levantamento de pesos. Os artigos continham pesquisas sobre metodologias de treino, biomecânica, nutrição e outros temas relevantes. Ele, naquele período, levou tais livros (atuais na época) para o Centro de Treinamento onde se preparavam os atletas para os Jogos de Spartak, e curiosamente, tais atletas mencionaram que tais pesquisas estavam ultrapassadas e que não seguiam mais tais orientações. Então por que raios se publicavam estes ‘yearbook’s’?

Na verdade, os pesistas continuam a usar barras, a realizar Arranques Potentes (Power Snatch), Arremessos Potentes, Puxadas, agachamentos costas e frontal... Nada fora inventado ou radicalmente alterado em relação ao que tais artigos, manuais, escritos e tratados orientam.

Um destes palestrantes destas ‘doper clinics’, Sergey Bondarenko, acredita que se você deseja ser o melhor, deves aprender com o melhor. Assim, os russos sabem como produzir fortes e potentes levantadores de peso, e se você quer ser sério sobre o treinamento, deves estudar seus métodos.

Concordo plenamente com o treinador, porém, percebo claramente que o que devemos aprender sobre seus métodos, fora escrito entre 1979 e 1986 nestes ‘Yearbook’s’, entre 1970 a 1988 em livros de diversos autores, como Vorobyev, Medvedyev, Dvorkin, Oleshko, Zhekov, Laputin, Lukashev e outros. Não nestes cursos básicos sobre técnicas modernas que não estão nem próximas de serem comprovadas como eficientes.

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Rodrigo Dall'Aqua