Por quê a Ciência para os Treinadores?

Recentemente tenho tido discussões com alguns técnicos de levantamento de peso, força e condicionamento sobre o tema da necessidade da Ciência no Esporte. Vários de nós, treinadores, estão interessados em expansão ou aperfeiçoamento de cursos de treinamento, e um dos temas que frequentemente surge é quais são os pré-requisitos para os candidatos a uma certificação de treinamento avançado?

Todos nós concordamos que uma espécie de domínio no campo das ciências é uma necessidade para quem quiser embarcar numa carreira de treinador, ou seja, uma profissionalização, que envolve mais do que apenas ensinar a técnica do arranque e do arremesso, e os exercícios de assistência.

Percebo que há no mínimo duas razões para que o treinador de levantamento de peso, ou de qualquer outra modalidade, não possua em seu currículo apenas a prática da modalidade.

A primeira razão é que há um enorme corpo de conhecimento sobre as respostas da fisiologia humana para o exercício e treinamento. Treinar um atleta é mais do que apenas escrever seu treinamento no papel e ter certeza que ele é realizado corretamente.

Um treinador tem de compreender como a dieta, o treinamento e a restauração estão alterando a fisiologia de seus atletas, e através de quais vias isso ocorre.

Isso permite ao treinador entender por que uma determinada abordagem trabalhada não está funcionando e como ela pode ser modificada. Além disso, proporciona ao treinador que possui a capacidade de fazer as perguntas pertinentes sobre o treinamento para que os outros treinadores mais experientes possam ser capazes de fornecer uma resposta significativa.

Permite ainda ao treinador a capacidade de modificar e reformular o treino de maneira adequada para cada atleta, pois o treinador pode entender, e não apenas identificar os diversos problemas e obstáculos que ocorrem. Por sua vez, fará o treinamento se tornar mais eficaz e, portanto, mais atraente para os atletas.

Falhas de um treinamento com o conhecimento científico insuficiente dos princípios fisiológicos envolvidos na adaptação do organismo ao treinamento limitam severamente a eficácia e capacidade do treinador em um longo prazo.

A segunda razão é que a ciência é a única disciplina acadêmica com uma metodologia eficaz no local para determinar as verdades empíricas sobre o universo físico.

Há tanta desinformação, tantas falsidades e crenças equivocadas sobre a formação de atletas neste país, pois ainda não vivemos em um país onde o esporte é visto com profissionalismo. Mesmo tendo muitos programas universitários que conferem Ph.D sobre os treinadores mestre, ainda há uma grande distância entre a teoria e a prática.

Tal coisa não existe nos países com uma maior Cultura esportiva, como Rússia, China, etc. Consequentemente, aqui no Brasil não há centro de informações adequadas, e qualquer metodologia de treinamento pode ter tanta influência quanto qualquer outra. Pois o que está sendo visto na Instituição de Ensino, nem sempre é aplicável na prática, e vice-versa, sendo muitas vezes, apenas tendência de mercado.

Por isso, é o trabalho do treinador para determinar se novas informações tem alguma validade, e, para isso, alguma familiaridade com o método científico é uma necessidade absoluta.

Além disso, há alguma necessidade de terminologia comum, e muito da terminologia é desenvolvida por cientistas esportivos, porém, como esse “feedback” entre o Mundo Acadêmico e o da Prática ainda é pequeno (para não dizer inexistente) pelas terras tupiniquins, há muitas terminologias equivocadas. No Levantamento de Peso isso é muito fácil de ser percebido. Até na sala de musculação a falta de padronização da terminologia é comum. Um treinador com uma sólida formação em ciências terá a capacidade de falar (sim, a ciência é uma linguagem), de modo articulado com os cientistas do esporte.

Por conseguinte o meu conselho para o aumento de nível dos treinadores interessados em trabalhar em força e condicionamento ou no esporte de levantamento de peso devem se certificar de que o aprofundamento nas ciências é seguro e essencial. Existe definitivamente uma necessidade de ser preenchido o campo com cientistas, técnicos do pensamento, por oposição a muito do que está sendo passado agora pelos “treinadores”. Porém, mais do que isso, há a necessidade da conciliação entre a Ciência e o Esporte. 

Me preocupo demais com o crescimento exacerbado do número de profissionais que se auto intitulam ‘coachs’, ‘mestres’, ‘sábios’ do peso apenas, e exclusivamente pela vivência prática em um país onde os resultados (em qualquer modalidade de força) são pífios. Não possuímos nenhum brasileiro realmente forte! Nenhum foi treinado, desde a sua iniciação (na infância), conforme as metodologias, conforme as diretrizes científicas para o treinamento de força. Mas ao invés de observarmos humildade e respeito, observamos apenas quarentões postando vídeos e 'conselhos' sem fundamento, sendo autoridades em treinamento de força Brasil afora. Observamos apenas jovens que começaram ontem, mas que se tornaram formadores de opinião em diversos cantos do país, apenas por possuírem uma 'prática' sem nexo, mas que obteve resultados (medíocres), mas considerados expressivos por pessoas leigas (inclusive colegas de profissão!). 

Devemos ser sinceros, humildes e aceitar o fato de que não temos condições alguma de medalhas. Que dificilmente iremos conquistar algo nos próximos ciclos Olímpicos. Que não possuímos metodologia alguma de trabalho. Que optamos por ficar discutindo sobre ângulos e outras baboseiras, numa disputa de ego para ver quem é o ‘menos pior’, enquanto os países fortes optam por trabalhar em conjunto, em uma unidade, desenvolvendo sistemas conforme sua realidade prática (de ensino-aprendizagem). Só assim nosso país obterá algum sucesso nos Jogos aos quais será sede em 2016!

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Sds,

Rodrigo Dall'Aqua